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sábado, 6 de dezembro de 2008

Ameaça de boicote X liberdade diplomática

Presidente da França fará reunião com Dalai Lama na Polônia

Primeiro encontro entre os dois líderes é criticado pela China.

Sarkozy almoçará com representantes de nove países do Leste Europeu.

Da France Presse


O presidente francês, Nicolas Sarkozy, irá se reunir neste sábado (6), pela primeira vez, com o Dalai Lama, líder espiritual do budismo tibetano, no porto de Gdansk, norte da Polônia, apesar de duras queixas por parte da China e de sua ameaça de boicote a produtos franceses.

Sarkozy chegou por volta das 12h30 (horário local) a Gdansk, onde participará da cerimônia do 25º aniversário da entrega do Prêmio Nobel da Paz ao presidente polonês, Lech Walesa, fundador do histórico sindicato Solidarnosc.

O presidente francês deve se encontrar com o Dalai Lama, Prêmio Nobel da Paz em 1989, às 16h30, no que será a primeira reunião de um presidente francês com o líder tibetano, exilado desde 1959 em Dharamsala, norte da Índia.

"Este encontro será um sinal muito forte para os tibetanos, para nossos compatriotas que lutam encarniçadamente de forma não violenta (...) há tanto tempo", declarou o secretário do Escritório do Tibete em Paris, Wangpo Bashi, a uma emissora francesa.

Desde que o encontro foi anunciado, há várias semanas, a China pressiona a França para voltar atrás, chegando a cancelar uma cúpula China-União Européia (os franceses ocupam atualmente a presidência rotativa do bloco), que deveria ter acontecido no dia 1º de dezembro em Lyon, centro-oeste da França, e uma cúpula bilateral, que seria realizada no palácio do Eliseu.

Agora, Pequim ameaça instituir um boicote aos produtos franceses. A China já havia feito pressões semelhantes em julho e agosto, quando o presidente francês informou que não sabia se compareceria à abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Após uma visita de Sarkozy à capital chinesa no fim de 2007, empresas francesas obtiveram contratos no valor de 20 bilhões (25 bilhões de dólares) de euros com o país.

Em agosto, durante uma visita Paris, o Dalai Lama precisou se conformar com um encontro com a primeira-dama francesa, Carla Bruni Sarkozy, e com uma reunião com o chanceler, Bernard Kouchner.
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Do Portal de notícias G1.globo.com

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Um país em busca da felicidade

Thimphu, a capital do Butão, estará em festa nos dias 6, 7 e 8 de novembro. O jovem Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, de 28 anos, receberá de seu pai a coroa real e se tornará o Quinto Rei do Butão. Essa transição de poder, com data recomendada pelos três principais astrólogos do país, é mais um marco da transformação que acontece no reino encravado nos vales do Himalaia. Quem cede a coroa é o Quarto Rei, Jigme Singye Wangchuck. Ele abdicou do trono em dezembro de 2006, em favor de seu filho mais velho, mesmo estando em excelente estado de saúde e com apenas 50 anos de idade. Sua atitude surpreendeu o país, pois Jigme Singye foi e continua sendo querido – quase venerado – por uma maioria esmagadora da população.

Jigme Singye ainda estipulou, na nova Constituição proposta por ele, que os próximos reis deverão obrigatoriamente renunciar aos 65 anos. Também convenceu seus súditos a eleger, por voto direto, em março de 2008, uma Assembléia Nacional e aceitar que o líder do partido majoritário fosse o primeiro-ministro. No ano passado, o rei visitou cidades e vilarejos dos 20 dzongkhags (distritos) para persuadir a população tradicional – ainda atada ao sistema monárquico – a votar, pois essas reformas seriam positivas. Seu recado: só existe um futuro para o reino, a democracia. Uma postura de desapego ao poder é tão raramente registrada que o monarca foi considerado pela revista Time, em 2006, como uma das cem pessoas mais influentes do mundo. Uma das explicações para essa atitude é a importância do budismo no Butão.
O plano do Quarto Rei era bem maior do que continuar regendo: transformar o poder absoluto do rei em uma monarquia constitucional. E incluir a felicidade como meta principal de sua nação. Inspirado pelos princípios budistas da compaixão e da harmonia, Jigme Singye cunhou, nos anos 80, o conceito de Felicidade Interna Bruta. A FIB pretende ser uma medida alternativa ao conhecido Produto Interno Bruto e ir mais além do total de serviços e mercadorias produzidos por um país.

Ao propor um conceito que sublinhava o bem-estar do indivíduo e da sociedade, as palavras de Jigme Singye cruzaram os picos do Himalaia e os oceanos do globo. Há algumas décadas, pensadores e economistas alternativos vêm considerando o tradicional PIB como uma medição limitada e, em alguns casos, errônea, pois considera elementos negativos da sociedade como positivos. Como o PIB avalia apenas o movimento do dinheiro, se metade dos carros de uma cidade caísse num abismo, as revendedoras de veículos, os fabricantes de peças automotivas ou as oficinas mecânicas aumentariam suas vendas – e o PIB subiria. Se um país destruísse suas florestas para transformá-las integralmente em produtos básicos, o PIB cresceria (embora o país tivesse perdido seu capital natural).

Medir valores intangíveis como a felicidade, porém, é uma tarefa complexa. Até porque cada pessoa a entende de forma distinta. Segundo o Plano Qüinqüenal do Butão, a FIB assenta-se sobre quatro pilares: desenvolvimento socioeconômico sustentável e eqüitativo, conservação ambiental, promoção do patrimônio cultural e boa governança. Para o Butão, não basta analisar o velho PIB – talvez porque ele seja um dos mais baixos do planeta, com apenas US$ 3,36 bilhões. O governo butanês adotou a FIB, criou uma coleção de novos indicadores socioambientais e passou a usá-los como um componente estratégico da política de planejamento nacional. Em discurso na ONU no final de setembro, o primeiro-ministro do Butão, Jigmi Thinley, defendeu a FIB: “É responsabilidade do Estado criar um ambiente que permita aos cidadãos buscar a felicidade”.

Leia matéria completa no site da Revista Época

domingo, 3 de agosto de 2008

Ku-Klux-Klan


Lá estão eles, cristãos de diferentes matizes, a protestar em frente ao Senado contra a votação da lei que criminaliza a homofobia. Um deles brande um cartaz com os dizeres: E o que faremos com a Bíblia? A rasgaremos?

Lá estão eles, em Brasília, guardiões zelosos da palavra divina, a lutar em sua jihad particular (e insana) a favor do preconceito e do retrocesso. Preocupam-se com o que farão com a Bíblia. Não se preocupam com o que sentem homossexuais quando são ridicularizados, agredidos, desrespeitados e condenados.

Que espécie de cristãos são esses, que carregam com orgulho e arrogância as bandeiras escuras do preconceito? Não desrespeitam em primeiro lugar ao próprio Cristo, que pregava a compaixão?

Notem: não se discute ali a união de pessoas do mesmo sexo. Não se discute ali a descriminalização do aborto, ou da maconha, temas mais complexos, embora igualmente urgentes e, na minha opinião, passíveis de imediata avaliação, discussão e aprovação. Discute-se apenas a possibilidade de se transformar em crime o desrespeito aos homossexuais. Notem: discute-se apenas um direito básico, humano, de respeito às opções sexuais de cada um.

Na última edição de VEJA, o colunista André Petry (leia) observa que nos anos 60 do século passado, nos Estados Unidos, membros da organização racista Ku-Klux-Klan também protestavam contra a criminalização do preconceito contra negros. É fato. "Então poderemos ir para a cadeia por fazer piadas com crioulos?", protestavam os membros da KKK. "E a nossa liberdade de fazer piadas com crioulos? Como fica?", argumentavam. "E nossa liberdade de queimar-lhes as casas, açoitar-lhes as costas, tirar-lhes as vidas, como fica?"

A Ku-Klux-Klan faria boa companhia aos cristãos homofóbicos de Brasília.


Da coluna do Tony Bellotto (Revista Veja)
Zemanta Pixie

quinta-feira, 15 de maio de 2008

No caminho com Maiakóvski


(Eduardo Alves da Costa)

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.


Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Que Diria Buda...

Hand-Embroidered Tibetan FlagImage by incurable_hippie via Flickr| Nayara Menezes |

Dalai Lama quer diálogo e o fim dos conflitos. A China quer silenciar o Tibete. E o mundo vem acumulando adeptos à causa dos monges tibetanos e, acima de tudo, quer a paz


O presidente da China, Hu Jintao, queria mostrar ao mundo o desenvolvimento alcançado pelo governo comunista. E para isso não economizou: gastou 60 bilhões de dólares na preparação do país para receber os jogos olímpicos.

Mas além da megaestrutura montada, outra cena fora do roteiro vem aguçando a atenção mundial. Monges tibetanos aproveitaram o brilho dos holofotes para clamar pela independência do Tibete, invadido pela China há mais de 50 anos. A polícia chinesa repreendeu o gesto com a brutalidade do regime totalitário. Mas o dragão – símbolo máximo da mitologia chinesa – se queimou em seu próprio fogo.
O mundo não gostou do que viu. Mas o que aconteceu com os monges budistas? Será que eles não conseguem mais praticar o pacifismo ensinado pelo mestre Buda?
Para entender os fatos atuais é fundamental compreender a essência dessa religião, que é uma das que mais crescem no mundo. Afinal, a repressão sofrida por monges e manifestantes pró-Tibete foi clara demonstração do medo que o governo chinês tem de que a religião acenda uma série de reivindicações dentro daquela que vem se tornando uma das maiores potências da atualidade.

O governo chinês não admite que nada ameace o desenvolvimento da economia que mais cresce no planeta. É por isso, que, segundo os especialistas, a China dificilmente cederá às pressões internacionais para libertar o território vizinho. Afinal, “o silenciamento do Tibete é ponto crucial da estratégia de dominação do regime comunista”, como analisa o cientista social e professor da PUC Minas Gilberto Damasceno. “Por definição, o estado comunista é laico e anti-religioso. A base do regime é o marxismo e um dos principais pensamentos de Karl Marx era que a religião é o ópio do povo”. De acordo com Damasceno, o fato de o totalitarismo não permitir divergências do regime e a convivência da multiplicidade de idéias é a principal causa do conflito no Tibete. Mas como explicar a contradição de um país que se autodenomina comunista e segue os ensinamentos marxistas, ser um dos países com maior expansão no mercado capitalista?

“A China é comunista das fronteiras para dentro. Das fronteiras para fora é extremamente capitalista”, define o professor Damasceno. Segundo ele, a dinâmica totalitária é exatamente o que garante a capacidade produtiva e explica o crescimento acentuado da China nos últimos anos. O filósofo e professor da Newton Paiva, René Dentz, compartilha da mesma opinião que o colega. “É o controle totalitário que proporciona o crescimento econômico da China”, reafirma.

E quem paga o preço pelo desenvolvimento econômico exacerbado é a própria população. Mais de 1,3 bilhão de habitantes sofrem na pele a falta de direitos trabalhistas e humanos impostos pelo regime comunista. “Os trabalhadores são explorados ao máximo, têm jornada excessiva, não têm final de semana e, ainda, recebem salários irrisórios”, pontua Dentz. Com mão-de-obra farta e barata, o país vai galgando posições importantes e realizando o famoso milagre econômico chinês, como descrito pelo escritor Luiz Giffoni, em seu livro China, o despertar do Dragão. “Os números sobre a China impressionam. São quase 2,5 trilhões de dólares de Produto Interno Bruto, 1,2 trilhão de dólares em reservas internacionais. O país registra 9% de crescimento médio anual desde 1981”, descreve Giffoni.

Graças a esses superlativos, especialistas afirmam que dentro de alguns anos a hegemonia da águia, alusão aos Estados Unidos, será substituída pelo poderio do dragão. No entanto, o professor René Dentz tem suas dúvidas em relação a essas projeções. “A China é hoje, sem dúvida, uma potência econômica. Porém, é urgente que ela resolva algumas questões éticas. Além do desrespeito aos direitos trabalhistas, o país não vem respeitando acordos internacionais importantes, como os direitos humanos, conquistados pelo mundo no pós-guerra e, ainda, desrespeita o meio ambiente”, avalia Dentz.

Para o professor, as manifestações pró-Tibete advindas de líderes internacionais, que ameaçam inclusive boicote na abertura dos jogos olímpicos, são prova de que o mundo está de olho na China e que cobra dela postura mais democrática. Já o professor Damasceno critica a posição dos líderes mundiais. “A Organização das Nações Unidas prega a autonomia das nações. Assim, todos os países democráticos se vêem obrigados a aderir ao discurso pró-Tibete. Porém, não há ameaça real de boicote. Se houvesse realmente solidariedade à causa tibetana, os países teriam formas mais eficazes de demonstrar isso, fazendo boicote à economia chinesa, por exemplo,” alfineta o professor Damasceno. Mas os especialistas admitem que no capitalismo não é viável decretar bloqueio econômico para grandes compradores ou grandes exportadores. “O mundo precisa da China”, resume Dentz.

Até mesmo a maior autoridade política e espiritual do Tibete, o Dalai Lama, parece concordar com essa afirmação. O líder já reconhece a dependência econômica do Tibete em relação à China. Nos últimos anos, o discurso do Dalai defende somente a autonomia da região, e não mais a separação total da China.


Segundo Damasceno, a postura do líder é a expressão máxima dos princípios do budismo. “A base do pensamento budista é a impermanência de todas as coisas. As pessoas são impermanentes, a juventude, até mesmo o próprio estado tibetano e os mosteiros são impermantes”.

O psicólogo zen budista Salim Zaidan, coordenador do Centro de Budismo Dawa Drolma, diz que a postura pacifista de Dalai Lama é mais um ensinamento budista. Um dos principais objetivos do budismo, segundo ele, é eliminar as causas do sofrimento, por meio da purificação dos sentimentos ruins, como desejo, apego, inveja. “Os monges estão brigando por um sonho impermanente. Quando eles perdem o controle sobre suas emoções, não conseguem se desapegar do Tibete, criam as causas para o sofrimento próprio e de toda a população tibetana. Quando o Dalai Lama pede pacifismo e tenta impedir que os monges respondam à polícia chinesa com violência, ele está evitando o sofrimento de milhares de pessoas, seguindo os preceitos do grande mestre, Buda”, analisa Zaidan.

No entanto, a posição pacifista do líder tibetano divide a opinião de seus seguidores. Mesmo ainda sendo a autoridade mais respeitada do Tibete, Dalai Lama não consegue conter a revolta dos seus seguidores e impedir o surgimento de uma nova corrente, denominada pelos especialistas como ‘budismo fundamentalista'. Ela é formada principalmente pelas novas gerações tibetanas, jovens que cresceram sob o enfraquecimento da influência do Dalai, exilado na Índia desde 1959. Eles viram e continuam a ver o saqueamento e a destruição do patrimônio religioso e cultural do Tibete. Apesar de estarem em sua própria pátria, os tibetanos são tratados como um povo de segunda categoria. Os melhores empregos da província são destinados aos chineses. Os mosteiros que ainda restam são vigiados ou até mesmo sitiados pela polícia. As manifestações religiosas são sufocadas pela repressão comunista.

Pouco a pouco, os tibetanos parecem não mais conseguir colocar em prática os ensinamentos do Buda, como paciência, tolerância e desapego. Eles brigam pelo direito de exercerem livremente sua religião. Pelo direito de terem de volta o território que lhes foi tomado. O psicólogo Léo Matos, estudioso e praticante do budismo tibetano, viveu sete anos na Índia e conviveu com lamas e monges tibetanos. Matos entende a postura pacifista do líder Dalai, porém, também compreende a revolta dos monges diante do domínio chinês. “É praticamente impossível uma convivência harmoniosa entre chineses e tibetanos. São culturas completamente diferentes”. Para o professor, a única saída para o conflito é a autonomia total do território tibetano. “Pode demorar anos, mas uma hora isso terá que acontecer”, opina.

O psicólogo Ricardo Sasaki, escritor e diretor do Centro de Estudos Buddhistas Nalanda, é de outra corrente do budismo, a escola Theravada. Ele também repudia o modo como o governo chinês trata suas minorias, já por décadas, praticando o genocídio cultural. “A repressão, a violência, o assassinato e torturas não podem acontecer num país que se propõe ser sede das Olimpíadas”, destaca. É esse também o discurso e apelo dos adeptos do budismo em todo o mundo. Manifestantes pró-Tibete dificultam a travessia da tocha olímpica rumo a Pequim. Na França, a chama chegou a ser apagada por manifestantes. Assim como o fogo da tocha olímpica, a causa pró-Tibete perderá a intensidade passadas as Olimpíadas. Porém, que sirva para acender as discussões mundo afora sobre o que acontece não só no Tibete, mas também no Turquestão, Paquistão, Iraque, e em tantas outras nações onde minorias são dominadas e oprimidas diariamente.

Da Revista Encontro

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Justiça cega

Ás vezes o ser humano me assusta. Assistindo às reportagens sobre o caso da menina Isabella, o que me chamou mais a atenção foi como o povo se mobiliza na frente das delegacias, das casas dos suspeitos aos gritos de "assassino!" quase ao ponto de um linchamento. Isso porque ainda não se descobriu quem foi o assassino e não existem réus confessos, o que pioraria muito a situação.

Aí eu fico pensando o que levaria o cidadão comum a se deslocar do conforto do seu lar para participar de tal "evento"? Eu sei que é um crime que nos tem indignado pela brutalidade, pelo absurdo, por tal violência contra uma menina tão indefesa. Mas até onde a nossa indignação nos dá o direito de nos colocarmos como verdadeiros juizes do "olho por olho, dente por dente"? Não consigo atinar porque o mesmo cidadão não se desbanca do seu lar para protestar quando acontecem esses escândalos políticos que tiram de todos nós a qualidade da saúde pública(que também acaba matando pessoas), nos tira as oportunidades, o transporte de qualidade, etc. Pois parece que ninguém percebe que a corrupção nos tira o dinheiro e os direitos que deveríamos ter para a nossa qualidade de vida como cidadãos que pagam os impostos que são "surrupiados" pelo suborno e a má gestão da coisa pública. Mas enfim, essa é outra história...

Lembro-me de um caso que aconteceu num hospital público de Taubaté (na época foi nacionalmente divulgado), em que uma mãe foi acusada de ter colocado cocaína na mamadeira da filhinha que estava internada. Resumindo ela foi presa, espancada pelas presas que estavam indignadas, perdeu a visão de um dos olhos nesses espancamentos, e mais tarde se descobriu que não era nada daquilo (parece que foi um medicamento que deram à menina, não me lembro), enfim ela era inocente...
Fora aquele caso da Escola Base, em que os donos foram acusados de pedofilia, execrados socialmente e também eram inocentes.
Não estou aqui dizendo com isso que o pai e a madrasta de Isabella sejam inocentes, eu não sei, a população ainda não sabe. Se forem culpados, que cumpram suas penas (nem vamos discutir se as penas aqui no Brasil são justas ou não), mas sei que não serei eu ou outra pessoa qualquer que vai "justiçar" aquela menina.

Ás vezes parece que o ser humano adora esses casos cruéis, não sei se por curiosidade, sadismo, ou pelo fato de se sentir alguém mais importante diante de "gente tão perversa”... não consigo atinar...
Só sei que me assusto muito. Sempre tive medo de multidões por esse lado "desembestado". Você nunca sabe o que uma multidão enfurecida ou amedrontada pode fazer...É a anulação da razão em nome dos sentimentos mais primitivos...