- Por que os homens cultivam este sentimento, qual a raiz dele, o que o
alimenta? É egoísmo?
R: É a forma de expandir seu ego, agregar a si mais
coisas, sentir-se maior mais amplo, evidente que o egoísmo é uma forma de
expressar isto.
- Quais as consequências negativas do apego?
R:
Sofrimento. Como as coisas são impermanentes é evidente que sofreremos quando as
perdermos.
- Quais, são os tipos de apego mais difíceis de trabalhar?
Apego a coisas materiais; apego das mães pelos filhos; apego amoroso , apego ao
passado (sentimentos de culpa, momentos felizes, mas que já passaram, mágoas,
etc); apego a amigos, etc
R: Os apegos mais fortes são os provenientes dos
afetos, basta notar que quando se tem um filho doente as pessoas dariam tudo que
tem para salvar a sua vida.
- Por que é tão difícil exercitar o desapego,
mesmo racionalmente sabendo que ele faz mal para nossa vida?
R: Porque de
qualquer forma sentimos que precisamos agregar coisas a nós mesmos para nos
sentirmos valiosos, por essa razão o caminho da realização espiritual é esquecer
de si mesmo, mas isto é para os que querem se dedicar mais
profundamente.
- Como é possível exercitar o desapego (material,
sentimental, etc)? De que forma as pessoas podem buscar isso?
R: Primeiro há
que entender a impermanência de todas as coisas, se admitirmos isso já teremos
dado um grande passo, colocar nossa felicidade na estabilidade das coisas é um
grande erro em um mundo onde tudo está sempre mudando.
- O que o desapego
(livrar-se do apego) traz de bom para a vida?
R: Uma felicidade tranquila.
Do blog: http://opicodamontanha.blogspot.com/2011/10/apego-e-desapego.html
Apenas nossa busca pela felicidade nos impede de vê-la. É como um vívido arco-íris que você segue sem nem mesmo pegar,ou como um cachorro correndo atrás do seu próprio rabo. Apesar de a paz e a felicidade não existirem como uma coisa ou lugar reais, elas estão sempre disponíveis e o acompanham a cada instante. (Lama Gendun Rinpoche)
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011
domingo, 18 de janeiro de 2009
Cinco Vidas
Esse texto de Thich Nhat Hanh me lembrou o recém lançado filme de Gabriele Muccino "Sete Vidas" com Will Smith."Na psicologia budista, o reconhecimento que você fez algo errado e se sente arrependido por isto, pode ser uma energia positiva e boa. É uma das formações mentais identificadas como "indeterminadas", porque pode ser boa ou pode ser ruim. Mas se aquele sentimento se torna um tipo de prisão, um complexo de culpa, não lhe permitindo fazer qualquer coisa, se você for capturado por isto, então se torna algo negativo. Com a consciência que você fez algo injusto, que fazendo algo errado causou sofrimento dentro de você e para pessoas ao redor você, e se está incentivado pelo desejo de não fazer mais, não repetir mais, então você pode alcançar uma transformação. Você se compromete a não fazer isto, e não só não fazer mais isto, mas fazer o oposto. Então você pode adquirir a transformação e cura que deseja.
Durante a guerra no Vietnã, um soldado americano ficou muito bravo porque muitos dos seus amigos tinham morrido em uma emboscada organizada por guerrilhas. Por causa daquela raiva ele tentou se vingar criando ele mesmo uma emboscada. Assim, foi para a aldeia onde a emboscada tinha acontecido e deixou uma bolsa de sanduíches à entrada da aldeia, se escondeu atrás das árvores e observou. Ele tinha posto veneno nos sanduíches. Eram sanduíches muito bons, mas ele os abriu e pôs veneno dentro. Ele realmente não sabia o que estava fazendo, sendo levado completamente pela raiva e pelo desejo de vingança. Um grupo de crianças passando, achou os sanduíches e os compartilharam entre si. Cinco minutos depois de comer, elas começaram a segurar os seus estômagos e chorar, e seus pais vieram. Era uma aldeia remota. Os pais tentaram achar um carro para transportá-las para o hospital mais perto que estava a várias dúzias de quilômetros. O soldado sabia perfeitamente bem que não havia nenhum modo para salvá-los. Cinco crianças morreram por causa da emboscada.
Ele não pôde contar para ninguém aquela história. Por mais de dez anos ele não estava em paz consigo mesmo. Toda vez ele que estava sentando em um quarto com crianças, não podia agüentar e saia do quarto. Isto continuou até o dia em que ele veio a um retiro organizado por Plum Village no sul da Califórnia. Aquele retiro era especialmente organizado para veteranos do Vietnã. Os seus psicoterapeutas e as suas famílias também vieram para apoiar a prática. Eles se organizaram em grupos pequenos de cinco ou seis pessoas, e nós pedimos a muitos vietnamitas que vivem em comunidades vizinhas que viessem nos apoiar. Nós praticamos meditação sentada e escuta profunda, e lhes demos uma chance para falar.
(...)
O veterano que tinha matado cinco crianças pôde nos contar a história depois de fazer muitos esforços. Eu lhe disse: "Certo, você matou cinco crianças e se sente arrependido por isto. Mas eu quero que você saiba que crianças continuam morrendo diariamente e não só no Terceiro Mundo, mas também na América. Muitas crianças sofrem abusos; muitas crianças morrem por razões diferentes. Há crianças que morrem só porque elas precisam de uma dose de remédio que não podem dispor. Você sabia que se quisesse poderia salvar cinco ou dez crianças diariamente? Por que você fica apegado a esse complexo de culpa e destrói sua vida? Você ainda é jovem e pode fazer algo. É bom ver que você sabe que fez algo injusto e lamenta isto. Mas isso não é o suficiente, porque há coisas práticas que você pode fazer para ajudar as crianças. Se você quiser, nós lhe contaremos o que fazer para salvar cinco crianças hoje e cinco crianças amanhã. Se você praticar assim durante alguns meses, verá as cinco crianças que morreram no Vietnã sorrirem em você e você adquirirá transformação e cura.
(...)
Qualquer que seja a natureza de seu sofrimento, qualquer que sejam os erros que você cometeu, seja qual for a categoria a que eles pertençam, você pode praticar desse mesmo modo. Você faz um compromisso para não repetir mais e faz um compromisso para fazer o oposto, enquanto se transforma em um instrumento de amor e entendimento. No momento em que recebe os Cinco Treinamentos de Plena Consciência você pode se tornar outra pessoa. Transformação pode acontecer desde o começo. Muitas pessoas, no momento que recebem Treinamentos de Plena Consciência, sentem-se maravilhosos, como se fossem seres novos, por causa daquela energia que chamamos de voto, a determinação para viver nossas vidas de modo que se possa trazer alívio a muitas pessoas que sofrem."
(Discussão de Dharma dada por Thich Nhat Hanh no dia 27 de julho de 1998 em Plum Village, França)
Extraído do Blog Sanga Virtual
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Aceitar a impermanência
Como pensar na impermanência quando tudo vai bem? Quando estamos em pleno gozo de fartura, sucesso e felicidade? Parece até um comportamento pessimista..., de gente que não sabe aproveitar as coisas boas da vida...As vezes parece até que a idéia da impermanência nos serve somente de consolo para quando as coisas não vão bem...pois reflete a nossa esperança de que tudo aquilo vai melhorar.
Mas aceitar a impermanência é apenas não se apegar; é ter a certeza do momento, e somente dele; é deixar ir embora, quando chegar o momento, e deixar vir também.
"A impermanência é doce e amarga, como comprar uma camisa nova e, anos mais tarde, vê-la transformada em um pedaço de uma colcha de retalhos. [...] A impermanência é o princípio da harmonia. Quando não lutamos contra ela, estamos em harmonia com a realidade. Muitas culturas celebram esse vínculo. Existem cerimônias marcando todas as transformações da vida, do nascimento à morte, assim como encontrar-se e separar-se, ir à guerra, perder a guerra, vencer a guerra. Nós também podemos reconhecer, respeitar e celebrar a impermanência."
(Pema Chödrön, Quando Tudo Se Desfaz)
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
E-mail de um morador de Itajai
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Meus amigos,
Ontem 27 de novembro de 2008 o sol saiu e conseguimos voltar a trabalhar. A despeito de brincadeiras e comentários espirituosos normais sobre esta "folga forçada" a verdade é que nunca me senti tão feliz de voltar ao trabalho. Não somente pelo trabalho, pela instituição e pela própria tranqüilidade de ter aonde ganhar o pão,mas também por ser um sinal de que a vida está voltando ao normal aqui na nossa Itajaí.
As fotos que circulam na internet e os telejornais já nos dão as imagens claras de tudo que aconteceu então não vou me estender narrando e descrevendo as cenas vistas nestes dias. Todos vocês já sabem de cor. Eu quero mesmo é falar sobre lições aprendidas.
Por mais que teorias e leituras mil nos falem sobre isso ainda é surpreendente presenciar como uma tragédia desse porte pode fazer aflorar no ser humano os sentimentos mais nobres e os seus instintos mais primitivos. As cenas e situações vividas neste final de semana prolongado em Itajaí nos fizeram chorar de alegria, raiva, tristeza e impotência. Fizeram-nos perder a fé no ser humano num segundo, para recuperará-la no seguinte. Fez-nos ver que sempre alguém se aproveitará da desgraça alheia, mas que também é mais fácil começar de novo quando todos se dão as mãos.
Que aquela entidade superior que cada um acredita (Deus, Alá, Buda, GADU etc.) e da forma que cada um a concebe tenha piedade daqueles:
- Que se aproveitaram a situação para fazer saques em Supermercados, levando principalmente bebidas e cigarros;
- Que saquearam uma farmácia levando medicamentos controlados, equipamentos e cofres e destruindo os produtos de primeira necessidade que ficaram assim como a estrutura física da mesma;
- Que pediam 5 reais por um litro de água mineral;
- Que chegaram a pedir 150 reais por um botijão de gás;
- Que foram pedir donativos de água e alimentos nas áreas secas pra vender nas áreas alagadas;
- Que foram comer e pegar roupas nos centros de triagem mesmo não tendo suas casas atingidas;
- Que esperaram as pessoas saírem das suas casas para roubarem o que restava;
- Que fizeram pessoas dormir em telhados e lajes com frio e fome para não ter suas casas saqueadas;
- Que não sentiram preocupação por ninguém, algo está errado em seu coração;
- Que simplesmente fizeram de conta que nada acontecia, por estarem em áreas secas.
Da mesma forma, que essa mesma entidade superior abençoe:
- Aqueles que atenderam ao chamado das rádios e se apresentaram no domingo no quartel dos bombeiros para ajudar de qualquer forma;
- Os bombeiros que tiveram paciência com a gente no quartel para nos instruir e nos orientar nas atividades que devíamos desenvolver;
- A turma das lanchas, os donos das lanchinhas de pescarias de fim de semana que rapidamente trouxeram seus barquinhos nas suas carretas e fizeram tanta diferença;
- À equipe da lancha, gente sensacional que parecia que nos conhecíamos de toda uma vida;
- Aos soldados do exército do Paraná e do Rio Grande do Sul;
- Aos bravos gaúchos, tantas vezes vitimas de nossas brincadeiras que trouxeram caminhões de mantimentos;
- Aos cadetes da Academia da Polícia Militar que ainda em formação se portaram como veteranos;
- Aos Bombeiros e Policias locais que resgataram, cuidaram, orientaram e auxiliaram de todas as formas, muitas vezes com as suas próprias casas embaixo das águas;
- Aos Médicos Voluntários;
- Às enfermeiras Voluntárias;
- Aos bombeiros do Paraná que trabalharam ombro a ombro com os nossos;
- Aos Helicópteros da Aeronáutica e Exercito que fizeram os resgates nos locais de difícil acesso;
- Aos incansáveis do SAMU e das ambulâncias em geral, que não tiveram tempo nem pra respirar;
- Ao pessoal do Helicóptero da Polícia Militar de São Paulo, que mostrou que longo é o braço da solidariedade;
- Ao pessoal das rádios que manteve a população informada e manteve a esperança de quem estava isolado em casa;
- Aos estudantes que emprestaram seus físicos para carregar e descarregar caminhões nos centros de triagem;
- Às pessoas que cozinharam para milhares de estranhos;
- Ao empresário que não se identificou e entregou mais de mil marmitex no centro de triagem;
- A todos que doaram nem que seja uma peça de roupa;
- A todos que serviram nem que seja um copo de água a quem precisou;
- A todos que oraram por todos;
- Ao Brasil todo, que chorou nossos mortos e nossas perdas;
- Aos novos amigos que fiz no centro de triagem, na segunda-feira;
- A todos aqueles que me ligaram preocupados com a gente;
- A todos aqueles que ainda se preocupam por alguém;
- A todos aqueles que fizeram algo, mas eu não soube ou esqueci.
Há alguns anos, numa grande enchente na Argentina um anônimo escreveu isto:
É hora de recomeçar, e talvez seja hora de recomeçar não só materialmente.
Talvez seja uma boa oportunidade de renascer, de se reinventar e de crescer
como ser humano.
Pelo menos é a minha hora, acredito.
Que Deus abençoe a todos.
Meus amigos,
Ontem 27 de novembro de 2008 o sol saiu e conseguimos voltar a trabalhar. A despeito de brincadeiras e comentários espirituosos normais sobre esta "folga forçada" a verdade é que nunca me senti tão feliz de voltar ao trabalho. Não somente pelo trabalho, pela instituição e pela própria tranqüilidade de ter aonde ganhar o pão,mas também por ser um sinal de que a vida está voltando ao normal aqui na nossa Itajaí.
As fotos que circulam na internet e os telejornais já nos dão as imagens claras de tudo que aconteceu então não vou me estender narrando e descrevendo as cenas vistas nestes dias. Todos vocês já sabem de cor. Eu quero mesmo é falar sobre lições aprendidas.
Por mais que teorias e leituras mil nos falem sobre isso ainda é surpreendente presenciar como uma tragédia desse porte pode fazer aflorar no ser humano os sentimentos mais nobres e os seus instintos mais primitivos. As cenas e situações vividas neste final de semana prolongado em Itajaí nos fizeram chorar de alegria, raiva, tristeza e impotência. Fizeram-nos perder a fé no ser humano num segundo, para recuperará-la no seguinte. Fez-nos ver que sempre alguém se aproveitará da desgraça alheia, mas que também é mais fácil começar de novo quando todos se dão as mãos.
Que aquela entidade superior que cada um acredita (Deus, Alá, Buda, GADU etc.) e da forma que cada um a concebe tenha piedade daqueles:
- Que se aproveitaram a situação para fazer saques em Supermercados, levando principalmente bebidas e cigarros;
- Que saquearam uma farmácia levando medicamentos controlados, equipamentos e cofres e destruindo os produtos de primeira necessidade que ficaram assim como a estrutura física da mesma;
- Que pediam 5 reais por um litro de água mineral;
- Que chegaram a pedir 150 reais por um botijão de gás;
- Que foram pedir donativos de água e alimentos nas áreas secas pra vender nas áreas alagadas;
- Que foram comer e pegar roupas nos centros de triagem mesmo não tendo suas casas atingidas;
- Que esperaram as pessoas saírem das suas casas para roubarem o que restava;
- Que fizeram pessoas dormir em telhados e lajes com frio e fome para não ter suas casas saqueadas;
- Que não sentiram preocupação por ninguém, algo está errado em seu coração;
- Que simplesmente fizeram de conta que nada acontecia, por estarem em áreas secas.
Da mesma forma, que essa mesma entidade superior abençoe:
- Aqueles que atenderam ao chamado das rádios e se apresentaram no domingo no quartel dos bombeiros para ajudar de qualquer forma;
- Os bombeiros que tiveram paciência com a gente no quartel para nos instruir e nos orientar nas atividades que devíamos desenvolver;
- A turma das lanchas, os donos das lanchinhas de pescarias de fim de semana que rapidamente trouxeram seus barquinhos nas suas carretas e fizeram tanta diferença;
- À equipe da lancha, gente sensacional que parecia que nos conhecíamos de toda uma vida;
- Aos soldados do exército do Paraná e do Rio Grande do Sul;
- Aos bravos gaúchos, tantas vezes vitimas de nossas brincadeiras que trouxeram caminhões de mantimentos;
- Aos cadetes da Academia da Polícia Militar que ainda em formação se portaram como veteranos;
- Aos Bombeiros e Policias locais que resgataram, cuidaram, orientaram e auxiliaram de todas as formas, muitas vezes com as suas próprias casas embaixo das águas;
- Aos Médicos Voluntários;
- Às enfermeiras Voluntárias;
- Aos bombeiros do Paraná que trabalharam ombro a ombro com os nossos;
- Aos Helicópteros da Aeronáutica e Exercito que fizeram os resgates nos locais de difícil acesso;
- Aos incansáveis do SAMU e das ambulâncias em geral, que não tiveram tempo nem pra respirar;
- Ao pessoal do Helicóptero da Polícia Militar de São Paulo, que mostrou que longo é o braço da solidariedade;
- Ao pessoal das rádios que manteve a população informada e manteve a esperança de quem estava isolado em casa;
- Aos estudantes que emprestaram seus físicos para carregar e descarregar caminhões nos centros de triagem;
- Às pessoas que cozinharam para milhares de estranhos;
- Ao empresário que não se identificou e entregou mais de mil marmitex no centro de triagem;
- A todos que doaram nem que seja uma peça de roupa;
- A todos que serviram nem que seja um copo de água a quem precisou;
- A todos que oraram por todos;
- Ao Brasil todo, que chorou nossos mortos e nossas perdas;
- Aos novos amigos que fiz no centro de triagem, na segunda-feira;
- A todos aqueles que me ligaram preocupados com a gente;
- A todos aqueles que ainda se preocupam por alguém;
- A todos aqueles que fizeram algo, mas eu não soube ou esqueci.
Há alguns anos, numa grande enchente na Argentina um anônimo escreveu isto:
COMEÇAR DE NOVO
Eu tinha medo da escuridão
Até que as noites se fizeram longas e sem luz
Eu não resistia ao frio facilmente
Até passar a noite molhado numa laje
Eu tinha medo dos mortos
Até ter que dormir num cemitério
Eu tinha rejeição por quem era de Buenos Aires
Até que me deram abrigo e alimento
Eu tinha aversão a Judeus
Até darem remédios aos meus filhos
Eu adorava exibir a minha nova jaqueta
Até dar ela a um garoto com hipotermia
Eu escolhia cuidadosamente a minha comida
Até que tive fome
Eu desconfiava da pele escura
Até que um braço forte me tirou da água
Eu achava que tinha visto muita coisa
Até ver meu povo perambulando sem rumo pelas ruas
Eu não gostava do cachorro do meu vizinho
Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar
Eu não lembrava os idosos
Até participar dos resgates
Eu não sabia cozinhar
Até ter na minha frente uma panela com arroz e crianças com fome
Eu achava que a minha casa era mais importante que as outras
Até ver todas cobertas pelas águas
Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome
Até a gente se tornar todos seres anônimos
Eu não ouvia rádio
Até ser ela que manteve a minha energia
Eu criticava a bagunça dos estudantes
Até que eles, às centenas, me estenderam suas mãos solidárias
Eu tinha segurança absoluta de como seriam meus próximos anos
Agora nem tanto
Eu vivia numa comunidade com uma classe política
Mas agora espero que a correnteza tenha levado embora
Eu não lembrava o nome de todos os estados
Agora guardo cada um no coração
Eu não tinha boa memória
Talvez por isso eu não lembre de todo mundo
Mas terei mesmo assim o que me resta de vida para agradecer a todos
Eu não te conhecia
Agora você é meu irmão
Tínhamos um rio
Agora somos parte dele
É de manhã, já saiu o sol e não faz tanto frio
Graças a Deus
Vamos começar de novo.
É hora de recomeçar, e talvez seja hora de recomeçar não só materialmente.
Talvez seja uma boa oportunidade de renascer, de se reinventar e de crescer
como ser humano.
Pelo menos é a minha hora, acredito.
Que Deus abençoe a todos.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Como me tornar um sábio?
domingo, 2 de novembro de 2008
Ostra Feliz Não Faz Pérola
"(...) A ostra, para fazer pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: "Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas..." Ostras felizes não fazem pérolas...Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída...Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. ..." Rubem Alves
sábado, 4 de outubro de 2008
Impermanência II
O fato de se tentar evitar qualquer mudança na vida não torna ninguém mais seguro ou mais dono da situação. A vida é - e será sempre – inesperada. Mesmo que certas pessoas procurem empobrecê-la o mais possível.Quando Deus percebe que determinada pessoa tem que dar um passo à frente, Ele faz com que esta pessoa caminhe - com ou sem vontade de andar. É melhor a gente dar os passos que precisa, com coragem, antes que sejamos forçados a dá-los.
Para aqueles mais indecisos, Deus costuma usar certas ferramentas - geralmente interpretadas como “castigos”, ou “mudanças repentinas”.
No final, mesmo os indecisos vão perceber a sabedoria destas mudanças - mas, até lá, terão sofrido desnecessariamente.
Do blog do Paulo Coelho
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Cenoura, ovo ou café?
Uma filha se queixou a seu pai sobre sua vida e de como as coisas estavam tão difíceis para ela. Ela já não sabia mais o que fazer e queria desistir.Estava cansada de lutar e combater. Parecia que assim que um problema estava resolvido um outro surgia.
Seu pai, um "chef", levou-a até a cozinha dele. Encheu três panelas com água e colocou cada uma delas em fogo alto. Logo as panelas começaram a ferver.
Em uma ele colocou cenouras, em outra colocou ovos e, na última pó de café. Deixou que tudo fervesse, sem dizer uma palavra.
A filha deu um suspiro e esperou impacientemente, imaginando o que ele estaria fazendo. Cerca de vinte minutos depois, ele apagou as bocas de gás. Pescou as cenouras e as colocou em uma tigela. Retirou os ovos e os colocou em uma tigela. Então pegou o café com uma concha e o colocou em uma tigela.
Virando-se para ela, perguntou "Querida, o que você está vendo?"
"Cenouras, ovos e café," ela respondeu.
Ele a trouxe para mais perto e pediu-lhe para experimentar as cenouras.
Ela obedeceu e notou que as cenouras estavam macias.
Ele, então, pediu-lhe que pegasse um ovo e o quebrasse.
Ela obedeceu e depois de retirar a casca verificou que o ovo endurecera com a fervura. Finalmente, ele lhe pediu que tomasse um gole do café.
Ela sorriu ao provar seu aroma delicioso.
Ela perguntou humildemente: "O que isto significa, pai?"
Ele explicou que cada um deles havia enfrentado a mesma adversidade, água fervendo, mas que cada um reagira de maneira diferente.
A cenoura entrara forte, firme e inflexível. Mas depois de ter sido submetida à água fervendo, ela amolecera e se tornara frágil.
Os ovos eram frágeis. Sua casca fina havia protegido o líquido interior. Mas depois de terem sido colocados na água fervendo, seu interior se tornou mais rigido.
O pó de café, contudo, era incomparável. Depois que fora colocado na água fervente, ele havia mudado a água.
"Qual deles é você?" ele perguntou a sua filha. "Quando a adversidade bate a sua porta, como você responde? Você é uma cenoura, um ovo ou um pó de café?"
E você?
Você é como a cenoura que parece forte, mas com a dor e a adversidade você murcha e se torna frágil e perde sua força?
Será que você é como o ovo, que começa com um coração maleável? Você teria um espírito maleável, mas depois de alguma morte, uma falência, um divórcio ou uma demissão, você se tornou mais difícil e duro? Sua casca parece a mesma, mas você está mais amargo e obstinado, com o coração e o espírito inflexíveis?
Ou será que você é como o pó de café? Ele muda a água fervente, a coisa que está trazendo a dor, para conseguir o máximo de seu sabor, a 100 graus centígrados. Quanto mais quente estiver a água, mais gostoso se torna o café. Se você é como o pó de café, quando as coisas se tornam piores, você se torna melhor e faz com que as coisas em torno de você também se tornem melhores.
Como você lida com a adversidade?
Você é uma cenoura, um ovo ou café?
Autor desconhecido ou ignorado
domingo, 21 de setembro de 2008
Precisamos ser árvores !
Para Katinha...
"Imagine uma árvore em meio a uma tempestade. No seu ponto mais alto, os pequenos galhos e as folhas estão se agitando violentamente sob o vento. A árvore parece vulnerável, bem frágil - parece que pode se quebrar a qualquer momento. Mas se observar o seu tronco, você verá que ela é sólida; e se baixar os olhos para a trama de suas raízes, você verá que ela está profunda e firmemente fincada no solo. A árvore é realmente forte. Pode resistir à tempestade. Nós também somos uma espécie de árvore. Nosso tronco, nosso centro, encontra-se logo abaixo do umbigo. As áreas relativas ao nosso pensamento e às nossas emoções situa-se na cabeça e no peito. Quando uma forte emoção, como o desespero, o medo, a ira ou o ciúme nos arrebata, devemos fazer o possível para fugir à zona de tempestade e descer ao vale a fim de praticar a inspiração e a expiração. Se permanecermos sob a ação dos ventos tempestuosos, podemos correr grande perigo. Podemos procurar refúgio dentro do tronco da árvore, inspirando e expirando, atentos ao movimento ascendente e descendente do seu abdômen."
Do livro "Vivendo em paz" Thich Nhat Hanh
"Imagine uma árvore em meio a uma tempestade. No seu ponto mais alto, os pequenos galhos e as folhas estão se agitando violentamente sob o vento. A árvore parece vulnerável, bem frágil - parece que pode se quebrar a qualquer momento. Mas se observar o seu tronco, você verá que ela é sólida; e se baixar os olhos para a trama de suas raízes, você verá que ela está profunda e firmemente fincada no solo. A árvore é realmente forte. Pode resistir à tempestade. Nós também somos uma espécie de árvore. Nosso tronco, nosso centro, encontra-se logo abaixo do umbigo. As áreas relativas ao nosso pensamento e às nossas emoções situa-se na cabeça e no peito. Quando uma forte emoção, como o desespero, o medo, a ira ou o ciúme nos arrebata, devemos fazer o possível para fugir à zona de tempestade e descer ao vale a fim de praticar a inspiração e a expiração. Se permanecermos sob a ação dos ventos tempestuosos, podemos correr grande perigo. Podemos procurar refúgio dentro do tronco da árvore, inspirando e expirando, atentos ao movimento ascendente e descendente do seu abdômen."Do livro "Vivendo em paz" Thich Nhat Hanh
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Como procurar o bem e evitar o mal
É natural termos recaídas e irmos procurar exatamente as coisas que sabemos que nos fazem mal. Procure cuidadosamente e se relacione com pessoas que você admire por serem aqueles que elevam, elas existem neste mundo, evite as companhias e comportamentos que conduzem ao mundo da destruição da saúde física e mental. Alimente o que há de melhor em você, não seu lado destrutivo e apegado, fumar , beber etc...são condutas suicidas disfarçadas, negam a vida e a felicidade, entorpecem, nos tiram a clareza. Busque a clareza, você sabe o que deve fazer e o que é melhor para você, intimamente todos o sabemos.Monge Genshô no Blog O Pico da Montanha(é onde estão os meus pés)
domingo, 17 de agosto de 2008
Será que o sofrimento é realmente necessário?
Sim e não.Se você não tivesse sofrido o que sofreu, não teria profundidade como ser humano, não teria humildade nem compaixão. Não estaria lendo este texto agora. O sofrimento rompe a casca do ego - do "eu" autocentrado - e promove uma abertura até atingir um ponto em que cumpriu sua função.
O sofrimento é necessário até que você se dê conta de que ele é desnecessário.
Eckhart Tolle é escritor e conferencista.
Extraído do Blog Esteja aqui e agora
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Sentimentos
(Mário Prata)SAUDADE é quando, o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue;
LEMBRANÇA é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo;
ANGÚSTIA é um nó muito apertado bem no meio do sossego;
PREOCUPAÇÃO é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento;
INDECISÃO é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa;
CERTEZA é quando a idéia cansa de procurar e pára;
INTUIÇÃO é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido;
PRESSENTIMENTO é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista;
VERGONHA é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora;
ANSIEDADE é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja;
INTERESSE é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento;
SENTIMENTO é a linguagem que o coração usa quando precisa mandar algum recado;
RAIVA é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes;
TRISTEZA é uma mão gigante que aperta seu coração;
FELICIDADE é um agora que não tem pressa nenhuma;
AMIZADE é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros;
CULPA é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia;
LUCIDEZ é um acesso de loucura ao contrário;
RAZÃO é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato;
VONTADE é um desejo que cisma que você é a casa dele;
PAIXÃO é quando apesar da palavra 'perigo' o desejo chega e entra;
AMOR é quando a paixão não tem outro compromisso marcado.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Sobre nós e os animais
"Se a inteligência é fonte de superioridade e os animais são seres inferiores, então também haverá seres humanos superiores, porque são mais inteligentes que outros, e logo seres humanos inferiores, o que conduziria a que existissem uns com mais direitos que outros. Os animais têm tanto direito a não sofrer como os humanos."Miguel Moutinho
"Não me interessa nenhuma religião cujos princípios não melhoram, nem tomam em consideração, as condiçõeses dos animais."
Abraham Lincoln
"Enquanto estivermos matando e torturando animais, vamos continuar a torturar e a matar seres humanos - vamos ter guerra. Matar precisa ser ensaiado e aprendido em pequena escala; enquanto prendermos animais em gaiolas, teremos prisões, porque prender precisa ser aprendido em pequena escala; enquanto escravizarmos os animais, teremos escravos humanos, porque escravizar precisa ser aprendido em pequena escala."
Edgar Kupfer-Koberwitz
"Como zeladores do planeta, É nossa responsabilidade lidar com todas as espécies com carinho, amor e compaixão. As crueldades que os animais sofrem pelas mãos dos homens estão além de nossa compreensão. Por favor, ajudem a parar com esta loucura."
Richard Gere
domingo, 13 de julho de 2008
A pipoca
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.
"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.
Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.
Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...
Rubem Alves
sábado, 31 de maio de 2008
Espelho mágico
Num sentido espiritual, não é muito efetivo tentar mudar o mundo externo para evitar nosso sofrimento. Por exemplo, se nos olhamos num espelho e vemos um rosto sujo, poderíamos pensar "Oh, que rosto imundo!" e rapidamente pegar um pano e esfregar o espelho. Esta não é a forma de nos livrarmos da face suja que vemos.Uma vez tendo realizado que o que está refletido é nossa própria face, podemos mudar a aparência no espelho simplesmente lavando o rosto. Não obteremos resultados lavando o sofrimento de nossas circunstâncias,mas reconhecendo nossa mente como a causa original, podemos nos modificar.
Chagdud Tulku Rinpoche, em "Vida e Morte no Budismo Tibetano",
terça-feira, 20 de maio de 2008
Pela janela

Imagine passar sua vida inteira em um pequeno quarto com apenas uma janela fechada e tão suja que mal deixe passar a luz. Você provavelmente acharia que o mundo é um lugar bastante obscuro e sombrio, repleto de criaturas de formas estranhas que lançam sombras aterrorizantes no vidro sujo quando passam pelo seu quarto. Mas imagine que um dia você derrame um pouco de água na janela, ou um pouco de chuva escorra pelo vidro depois de uma tempestade e use um trapo ou a manga de sua camisa para enxugar a água. Ao fazer isso, parte da sujeira acumulada no vidro é limpa. Subitamente, um pequeno feixe de luz atravessa o vidro. Curioso, você pode limpar um pouco mais e, à medida que mais sujeira é limpa, mais luz entra no quarto. “Talvez”, você pensa, “o mundo não seja tão escuro e assustador. Talvez seja o vidro”.
Você vai até a pia e pega mais água (e talvez mais alguns trapos) e esfrega até que toda a superfície da janela fique livre da sujeira. A luz entra em todo o seu resplendor e você percebe, talvez pela primeira vez, que todas aquelas sombras de formas estranhas que costumavam assustá-lo a cada vez que passavam eram pessoas – exatamente como você! E, das profundezas de sua consciência, surge o desejo instintivo de formar um vínculo social – sair para a rua e estar com essas pessoas.
Na verdade, você não mudou absolutamente nada. O mundo, a luz e as pessoas sempre estiveram lá. Você só não conseguia vê-los porque sua visão estava obscurecida. Mas agora você vê tudo, e que enorme diferença isso faz!
É isso que, na tradição budista, chamamos de despertar da compaixão, o despertar de uma capacidade inata de identificar-se com e compreender a experiência dos outros.
Yongey Mingyur Rinpoche, A alegria de viver, Editora Elsevier/Campus, Rio de Janeiro, 2007
quinta-feira, 15 de maio de 2008
No caminho com Maiakóvski

(Eduardo Alves da Costa)
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!
terça-feira, 29 de abril de 2008
Juventude

Às vezes vejo minha juventude como se estivesse me debatendo dentro d'água... onde batia vigorosamente os braços, provocando com isso aquele alvoroço da água, com algumas pessoas ao meu redor, por causa disso também, se debatendo e turvando mais ainda essa água. Nos movimentos das mãos se batendo, nem sabemos de quem é aquela mão que nos atingiu, nem sabemos onde foi parar as nossas próprias mãos...
Aí a vida ensina a gente a boiar... e começamos a enxergar melhor onde estamos, com quem estamos, o que estamos fazendo...
Próximo passo: aprender urgentemente a nadar...
domingo, 27 de abril de 2008
Viva o Presente

Do site Monja Coen
"Uma vez um jovem que havia mudado de emprego muitas vezes veio me visitar, e me contou seus sonhos. Ele queria ser isto e ele queria aquilo. É bom ter sonhos sobre o futuro. Você pode ir além dos seus limites e conseguir mais. Mas não é sábio esquecer que, embora uma visão do futuro seja necessária para colocar você no caminho agora, se você mantiver seus olhos focados no horizonte muito adiante, você não verá o buraco aos seus pés. E você cairá de costas sem ter para onde ir. Se os seus sonhos vão ser apenas sonhos ou se os sonhos se tornarão realidade, depende de como você está vivendo agora.
Mestre Dôgen (1200-1253) expressou iluminação com esta frase: "O desabrochar da ameixeira é a primavera". Mais tarde essas pétalas caem no chão. Se a maneira na qual vivemos nos dá a alegria da primavera também pode levar embora a alegria da primavera e trazer a dureza do inverno. Mesmo que o grande caminho da vida se abra à nossa frente, a nossa maneira de viver pode não usar as oportunidades. Por outro lado, um grande portão de aço, sem nenhum sinal de abertura, pode abrir-se de par em par devido a algum esforço que hoje fazemos. As pessoas cujas vidas têm sido infelizes ou cheias de atos vergonhosos geralmente ficam esmagadas pelo grande peso do seu passado e é difícil para elas recomeçarem.
Mas não são os erros que arruínam uma pessoa, é o constante pensar sobre eles.Seja quão maravilhosa tenha sido sua vida no passado, quando o presente não é bom, simplesmente não é bom. E também é verdadeiro que seja quão infeliz ou vergonhosa sua vida tenha sido no passado, se você está bem agora, você está bem. Se você se desanima por causa dos enganos passados, isto, na verdade, depende de sua atitude atual em relação a eles. Você tem que aceitar que o seu passado fez o que você é, mas não determina como viver o presente. Assim não existe realmente uma má experiência.
É importante ser capaz de aceitar essas experiências como valiosas, digeri-las para que se tornem alimento do presente.Se pessoas de muita idade ou doentes com pouca esperança no futuro compararem sua fragilidade presente com o vigor de sua juventude, apenas se tornariam mais frágeis, tristes. Não é sábio comparar."
De Shundo Ayoama, trecho do texto " Beleza da Transciência ", publicado na revista Dharma World da Kosei Publishing Co. em 1995.
domingo, 20 de abril de 2008
As árvores

"Se as árvores fossem como os humanos, vê-las-íamos baixarem-se com os ramos para apanhar todas as folhas e conservá-las em segurança."
Do Blog Arte Zen
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