Apenas nossa busca pela felicidade nos impede de vê-la. É como um vívido arco-íris que você segue sem nem mesmo pegar,ou como um cachorro correndo atrás do seu próprio rabo. Apesar de a paz e a felicidade não existirem como uma coisa ou lugar reais, elas estão sempre disponíveis e o acompanham a cada instante. (Lama Gendun Rinpoche)
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Sobre o caminho
Aquele que se agarra à visão mundanaNão pode entrar no caminho.
Àquele que não entende realmente, mas diz que entende,
Não pode falar sobre o caminho.
Aquele que vive no conforto ocioso e que é preguiçoso
Não pode aprender o caminho.
Aquele que acredita em mentes individuais e separadas
Não pode falar sobre o caminho.
Aquele que abandona o movimento e procura a calma
Não pode cultivar o caminho.
Aquele que abandona o ensinamento para investigar a meditação
Não pode atingir o caminho.
Aquele que depende de palavras e conceitos para explicar o significado profundo do Dharma
Não pode entender o caminho.
Aquele que deseja ser apressado e procura por algo fácil
Não pode ser iluminado pelo caminho.
Aquele que separa o pequeno do grande
Não pode ser iluminado pelo caminho.
Aquele que se agarra ao impuro chamando-o de puro
Não pode conhecer o caminho.
Aquele que não gosta das coisas comuns e simples e,
Ao invés disso, tem uma afeição por coisas novas e especiais,
Não pode tender ao caminho.
Aquele que gosta apenas do simples e superficial
Mas não gosta do detalhado e profundo
Não pode entender o caminho.
Aquele que conduz uma tarefa de maneira superficial e que não gosta de esforço,
O que é contra a disciplina,
Não pode praticar o caminho.
Aquele que atinge um pouco mas acha que é suficiente
Não pode praticar o caminho.
Aquele que tem pouco entendimento mas acha que é suficiente
Não pode atingir o caminho.
Para atingir o caminho,
Apenas transcenda as preocupações, visões e tentações mundanas.
Para atingir o caminho,
Apenas permaneça modestamente e com mente aberta.
Para atingir o caminho,
Apenas trabalhe assiduamente.
Para atingir o caminho,
Apenas aprenda, com professores bons e próximos,
Como compreender o Dharma intuitivamente e, em todos os lugares,
Use o ensinamento experientemente para selar a mente.
Ou-i, 1595-1653. Adaptado de An Exhortation to be alert to the Dharma.
Do site Dharmanet
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Refúgio
Na tradição budista praticamos os Três Refúgios: Eu busco refúgio no Buda. Busco refúgio no Dharma. Busco refúgio na Sangha. Sempre digo que buscar refúgio não é propriamente um problema de crença. É um problema de prática. Não significa ter que declarar a fé no Buda. Vocês precisam realmente buscar refúgio no Buda. Mas o que significa buscar refúgio no Buda? Como isso é feito?(...)
Se praticarem direito, algum dia chegarão a compreender que o Buda realmente não é outra pessoa. O Buda está entre nós, porque a substância da qual o Buda é feito é a energia da conscientização, da compreensão e da compaixão. Se praticarem direito e prestarem atenção a Buda, saberão que a natureza do Buda está dentro de vocês. Vocês têm a capacidade de despertar, de ter compreensão e compaixão. Por isso, agora fizemos progresso e estamos buscando o Buda dentro de nós. Buda deixa de ser o outro. Buda pode ser encontrado em qualquer lugar, especialmente dentro de você mesmo. A não ser que você entre em contato com a natureza de Buda ou com a comunidade budista, você não poderá chegar a Buda. Se Shakyamuni, o Buda histórico, possui a natureza do Buda, vocês também têm a sua própria natureza de Buda. É onde teremos que chegar.
(...)
Refugiar-se no Buda significa tocar a natureza do Buda em vocês, tocar a semente da iluminação em vocês, ter uma experiência direta da natureza desta iluminação, para que obtenham e abram o pensamento para a iluminação, para a profunda impressão da iluminação. Bodhicita é o desejo mais profundo em cada um de nós, o desejo de nos tornarmos despertos, conscientes, de nos libertarmos do sofrimento e ajudar os seres vivos.
Do livro “Jesus e Buda Irmãos” – Thich Nhat Hanh
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
domingo, 18 de janeiro de 2009
Cinco Vidas
Esse texto de Thich Nhat Hanh me lembrou o recém lançado filme de Gabriele Muccino "Sete Vidas" com Will Smith."Na psicologia budista, o reconhecimento que você fez algo errado e se sente arrependido por isto, pode ser uma energia positiva e boa. É uma das formações mentais identificadas como "indeterminadas", porque pode ser boa ou pode ser ruim. Mas se aquele sentimento se torna um tipo de prisão, um complexo de culpa, não lhe permitindo fazer qualquer coisa, se você for capturado por isto, então se torna algo negativo. Com a consciência que você fez algo injusto, que fazendo algo errado causou sofrimento dentro de você e para pessoas ao redor você, e se está incentivado pelo desejo de não fazer mais, não repetir mais, então você pode alcançar uma transformação. Você se compromete a não fazer isto, e não só não fazer mais isto, mas fazer o oposto. Então você pode adquirir a transformação e cura que deseja.
Durante a guerra no Vietnã, um soldado americano ficou muito bravo porque muitos dos seus amigos tinham morrido em uma emboscada organizada por guerrilhas. Por causa daquela raiva ele tentou se vingar criando ele mesmo uma emboscada. Assim, foi para a aldeia onde a emboscada tinha acontecido e deixou uma bolsa de sanduíches à entrada da aldeia, se escondeu atrás das árvores e observou. Ele tinha posto veneno nos sanduíches. Eram sanduíches muito bons, mas ele os abriu e pôs veneno dentro. Ele realmente não sabia o que estava fazendo, sendo levado completamente pela raiva e pelo desejo de vingança. Um grupo de crianças passando, achou os sanduíches e os compartilharam entre si. Cinco minutos depois de comer, elas começaram a segurar os seus estômagos e chorar, e seus pais vieram. Era uma aldeia remota. Os pais tentaram achar um carro para transportá-las para o hospital mais perto que estava a várias dúzias de quilômetros. O soldado sabia perfeitamente bem que não havia nenhum modo para salvá-los. Cinco crianças morreram por causa da emboscada.
Ele não pôde contar para ninguém aquela história. Por mais de dez anos ele não estava em paz consigo mesmo. Toda vez ele que estava sentando em um quarto com crianças, não podia agüentar e saia do quarto. Isto continuou até o dia em que ele veio a um retiro organizado por Plum Village no sul da Califórnia. Aquele retiro era especialmente organizado para veteranos do Vietnã. Os seus psicoterapeutas e as suas famílias também vieram para apoiar a prática. Eles se organizaram em grupos pequenos de cinco ou seis pessoas, e nós pedimos a muitos vietnamitas que vivem em comunidades vizinhas que viessem nos apoiar. Nós praticamos meditação sentada e escuta profunda, e lhes demos uma chance para falar.
(...)
O veterano que tinha matado cinco crianças pôde nos contar a história depois de fazer muitos esforços. Eu lhe disse: "Certo, você matou cinco crianças e se sente arrependido por isto. Mas eu quero que você saiba que crianças continuam morrendo diariamente e não só no Terceiro Mundo, mas também na América. Muitas crianças sofrem abusos; muitas crianças morrem por razões diferentes. Há crianças que morrem só porque elas precisam de uma dose de remédio que não podem dispor. Você sabia que se quisesse poderia salvar cinco ou dez crianças diariamente? Por que você fica apegado a esse complexo de culpa e destrói sua vida? Você ainda é jovem e pode fazer algo. É bom ver que você sabe que fez algo injusto e lamenta isto. Mas isso não é o suficiente, porque há coisas práticas que você pode fazer para ajudar as crianças. Se você quiser, nós lhe contaremos o que fazer para salvar cinco crianças hoje e cinco crianças amanhã. Se você praticar assim durante alguns meses, verá as cinco crianças que morreram no Vietnã sorrirem em você e você adquirirá transformação e cura.
(...)
Qualquer que seja a natureza de seu sofrimento, qualquer que sejam os erros que você cometeu, seja qual for a categoria a que eles pertençam, você pode praticar desse mesmo modo. Você faz um compromisso para não repetir mais e faz um compromisso para fazer o oposto, enquanto se transforma em um instrumento de amor e entendimento. No momento em que recebe os Cinco Treinamentos de Plena Consciência você pode se tornar outra pessoa. Transformação pode acontecer desde o começo. Muitas pessoas, no momento que recebem Treinamentos de Plena Consciência, sentem-se maravilhosos, como se fossem seres novos, por causa daquela energia que chamamos de voto, a determinação para viver nossas vidas de modo que se possa trazer alívio a muitas pessoas que sofrem."
(Discussão de Dharma dada por Thich Nhat Hanh no dia 27 de julho de 1998 em Plum Village, França)
Extraído do Blog Sanga Virtual
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Prática na vida cotidiana
"As práticas espirituais só adquirem seu sentido na vida cotidiana. A relação com nossos pais, esposa, marido, filhos e colegas de trabalho, e também com os seres em todos os planos da existência, material e sutil, isto é o termômetro da prática. Um sinal grave é o desinteresse e a falta de compaixão. O isolamento e a prática formal são artificialidades – só se justificam pela remoção de obstáculos que eventualmente proporcionem. Todas as construções espirituais, ainda que meritórias, são esponja, água e sabão, ou seja, dispensáveis ao final. S.S.XIV Dalai Lama diz que todos os seres fazem prática espiritual, mesmo que não saibam, uma vez que se movem buscando tanto a felicidade como a liberdade frente ao sofrimento, e lembra que as religiões preenchem sua função justo por estarem voltadas a auxiliar os seres nisto.
Quando desejamos ter uma casa na praia, estamos também buscando felicidade. Ainda que nos falte clareza quanto a isto, esta é a motivação verdadeira, o elemento mental que cria no nosso desejo quanto à casa. Para buscar a felicidade, a casa de praia é uma boa opção?
Passar lá o fim de semana é ótimo, não há mácula nisso, mas quando chega o domingo, acaba. A casa da praia nos traz um tipo de felicidade que necessita um certo esforço e trabalho para acontecer, e o benefício é curto. No budismo, sentimos que trabalhos longos e felicidades curtas não são muito interessantes, buscamos produzir felicidade de longo alcance. Alguém, por exemplo, que supere internamente o orgulho, imediatamente melhorará sua relação com a família e com os amigos, nessa vida e nas que se seguirão e todos ao redor se beneficiam.
Há variados tipos de felicidade, por exemplo, a vaga em algum emprego. Neste caso nossa felicidade implica na frustração dos outros (que não conseguirão), além do mais, tão logo comecemos a trabalhar, já surge a insatisfação e começamos a pensar nos feriados ou então quanto tempo falta para nossa aposentadoria... Esse benefício de conseguir um "bom emprego" é muito diferente do de superar um dos cinco venenos – orgulho, inveja e avareza, desejo e apego, ignorância, raiva. Veja bem, quando superamos a avareza, neste exato instante nos tornamos ricos. Descobrimos uma fonte de satisfação permanente, e tudo que brota dessa fonte e que podemos oferecer aos outros é motivo de alegria para nós. Quem dá alguma coisa nunca perde essa alegria, já quem recebe, pode até esquecer.
Felicidade e motivação no budismo
A prática budista foca cuidadosamente a motivação. Recitar mantras ou entrar num templo sem a motivação correta, envelhece a religião. A falha é nossa. Por que não olhamos as práticas com o olho correto, não há benefícios, e nos tornamos surdos às palavras de sabedoria. Por outro lado, a motivação de trazer benefícios aos outros tem o poder de transformar qualquer ação em prática espiritual. É muito comum que as mães não tenham tempo para praticar formalmente, mas com a motivação de ajudar seus filhos e sustentar a casa, tudo que elas fazem se transforma em prática espiritual."
Lama Padma Samten
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